Durante muitos anos vivi em piloto automático.

Acordava, trabalhava, cumpria as minhas responsabilidades e seguia em frente. Mas, por dentro, existia um vazio que eu confundia com solidão. Procurava constantemente validação, acreditava que a felicidade dependia das circunstâncias e vivia tão desligada de mim própria que nem conseguia reconhecer aquilo de que realmente precisava.

A minha mente conduzia a minha vida. Nunca parava. Nunca existia espaço para observar, respirar ou simplesmente estar presente.

Como muitos emigrantes, passei anos a reconstruir a minha vida noutro país. Trabalhei em diferentes profissões: servi cafés, fui maquilhadora, fiz limpezas e aprendi que, muitas vezes, sobrevivemos tão ocupados a responder às exigências da vida que nos esquecemos de olhar para dentro.

Foi em Inglaterra que tudo mudou.

O meu marido sofreu uma crise de ansiedade severa no meio da rua. Eu não falava inglês. Estávamos sozinhos.

Lembro-me de olhar para os médicos sem conseguir compreender o que diziam e de pensar, pela primeira vez, que podia perdê-lo.

Pouco tempo depois, também eu comecei a viver com ansiedade e depressão.

O meu maior medo era morrer sozinha.

Durante muito tempo esperei que a solução viesse de fora. Que alguém me dissesse o que fazer. Que alguma circunstância mudasse.

Mas a resposta nunca chegou dessa forma.

Foi então que assisti a algo que mudou completamente a minha forma de olhar para a vida.

O meu marido começou a praticar Atenção Plena (Mindfulness) todas as manhãs. Aos poucos, vi uma pessoa que vivia dominada pela ansiedade recuperar a alegria, a presença e a esperança.

Um dia perguntei-lhe:

“Podes enviar-me uma dessas práticas?
Quero experimentar.”

Nunca mais parei.

O que começou como uma tentativa de aliviar o sofrimento transformou-se numa procura profunda por compreender o comportamento humano, a atenção e a forma como construímos os nossos padrões mentais e emocionais.

Anos mais tarde, regressar a Portugal foi uma decisão de coragem.

Deixei para trás uma vida construída para investir naquilo que verdadeiramente fazia sentido para mim: estudar.

Mergulhei na Programação Neurolinguística, na Hipnoterapia, na Atenção Plena (Mindfulness) e em diferentes abordagens sobre o comportamento humano.

Mas, acima de tudo, comecei a observar pessoas.

Lembro-me de um colega em Inglaterra, um jovem brilhante que fazia cálculos complexos de cabeça enquanto limpava casas de banho.

Um dia percebi que o maior limite dele não era a sua capacidade, mas a história que acreditava sobre si próprio.

Foi aí que compreendi algo que nunca mais esqueci:

O potencial existe, mas nem sempre a mente nos permite vê-lo.

Mais tarde, enquanto liderava formações junto de equipas, continuei a confirmar essa ideia.

Não ensinava apenas procedimentos.

Observava pessoas.

Percebia como o stress alterava a comunicação, como o piloto automático influenciava as decisões e como pequenos momentos de presença mudavam completamente a forma como uma equipa trabalhava em conjunto.

Uma colaboradora disse-me algo que guardo até hoje:

“Foi a única formação onde não me senti burra.”

Naquele momento percebi que ensinar não era apenas transmitir informação.

Era criar um espaço onde cada pessoa pudesse reconhecer o seu próprio valor.

Ao longo desta caminhada também compreendi que, para mim, o mindfulness ia muito além da meditação.

A verdadeira transformação começava antes.

Começava quando tínhamos a coragem de reconhecer os nossos padrões, compreender a forma como reagimos ao mundo e aprender a responder com mais consciência.

Foi dessa integração entre experiência pessoal, estudo e prática que nasceu o Método INBLISS.

Um método construído sobre três pilares simples, mas profundamente humanos:

Reconhecer. Regular. Integrar.

Hoje trabalho com pessoas, líderes e organizações porque acredito que a qualidade da nossa vida depende, em grande parte, da qualidade da nossa atenção.

Não acredito em mudanças instantâneas.

Acredito na consciência.

Acredito que ninguém pode fazer este caminho por nós.

Durante muitos anos esperei que a mudança viesse de fora.

Hoje sei que a transformação começou no dia em que tive a coragem de olhar para dentro.

Foi nesse momento que encontrei a minha verdadeira força.

E foi dessa história que nasceu a INBLISS.

Se, daqui a dez anos, alguém me disser que a INBLISS mudou a sua vida, espero que seja por uma razão muito simples:

Porque, um dia, a INBLISS mudou a minha.